
Já tudo se disse e falou sobre o Iraque. Passou a fazer parte da paisagem mediática e nós já nem registamos as mensagens que passam.
Morreram umas dezenas de pessoas em Bagdad? Deixa lá, são iraquianos e aparentemente destinados a isso. Tudo é anónimo e envolto na neblina do rotineiro. Já não se conseguem associar os significados às palavras.
Por isso esta reportagem é importante! Descobri-a no site dos Radiohead enquanto fazia o download do seu último álbum "In Rainbows", que eles acharam por bem vender na net pelo preço que o ouvinte queira pagar (mesmo sendo 0 €, como foi o meu caso).
É uma reportagem que humaniza as vítimas e as torna reais, através da voz e dos relatos dos militares americanos que lá estiveram. É nítida a sensação de que já não existe qualquer relação entre o papel das tropas e a missão que continua a ser propalada.
Não me interessa mais falar das causas da guerra e da ocupação e se a situação actual é melhor ou pior que a anterior. E é óbvio que a saída das tropas deixará o país num estado de perfeito caos, com todas as organizações da sociedade excessivamente frágeis e imberbes para resistir ao tumulto. Mas, depois de se ler isto, é impossível escapar à conclusão de que quanto mais tempo ocorrer este tipo de ocupação de um país islâmico por um país cristão (deixemos o ocidental de lado, pois houve muito de cruzada no modo como foi feita a guerra), piores serão os danos para a credibilidade do nosso modelo de sociedade no mundo islâmico.
A racionalidade foi substituída por uma racionalização mecânica, apoiada no cumprimento restrito dos protocolos muitas vezes treinados e na objectização do outro, do desconhecido, do árabe.
Já não há saída!
Um comentário:
Se ha coisa que tenho aprendido com os anos é que aquilo que é obvio para mim nao tem de o ser necessariamente para os outros. Esta é uma verdade incontornavel quer no que diz respeito a "grandes questoes" quer no que a outras, porventura mais comezinhas, concerne. Quantas vezes assumo que uma mera inflexao no meu tom de voz ou na minha expressao facial devera ser mais que sificiente para fornecer ao meu interlocutor ou à minha interlocutora uma imagem abrangente do que estou a pensar ou sentir. Se é tao obvio para mim, como pode nao ser para os outros?. Essa inflexao nem deveria ser necessaria mas ofereco-a como um bonus para quem, porventura menos atento, nao tenha feito o obvio exercicio de me ler os pensamentos ou de os saber de antemao. É esta logica que tantas vezes me parece inabalavel que tento combater, por tantas vezes me dar conta que, espanto absoluto, as pessoas com quem interajo por vezes cometem a ousadia de nao perceber o que esta por detras do meu silencio e nao agirem como se este fosse tao explicito como eu imagino. Assim se passa, como disse, com as coisas "pequenas" de todos os dias, mas tambem com as "grandes" questoes. E é por isso que nao posso concordar contigo, Pedro, quando dizes que nada mais ha a dizer sobre o Iraque. Sim, é claro, tudo é tao evidente que nao deveria ser necessario verbaliza-lo. O obvio nao precisa de ser explicitado. O incontornavel nao requer explicacões. Mas a verdade é que, por mais que isso seja incompreensivel, o obvio nao o é para todos. E é por isso que nao nos podemos cansar de dizer aquilo que todos "sabem". É por isso que ha que repetir à exaustao, para aqueles que nao querem ver ou que se recusam a ouvir: a invasao do Iraque foi um acto ilegal, prepetrado for uma super-(pre)potencia maniaca, chefiada por fanaticos dos mais perigosos que este mundo ja conheceu, apoiada em mentiras tao "obvias" quanto, aparentemente, eficazes. Nao ha reportagem que faca com que nada fique para dizer sobre o Iraque, enquanto o que é obvio para alguns nao se o tornar para todos. Mesmo os factos mais triviais têm de ser ditos e re-ditos para acordar as mentes desatentas e aquelas que, por limitacao ou cegueira voluntaria, nao os veêm. Dize-lo, repeti-lo sempre, com todas as palavras simples e as reportagens elaboradas que tivermos à mao. Para que ninguem se iluda, se engane ou se esqueça.
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