Kozure Okami é uma obra seminal da banda desenhada, sendo talvez a principal responsável pelo impacto dos manga nos comics americanos.
Criada em 1970 no Japão pelo escritor Kazuo Koike e pelo desenhador Goseki Kojima, foi uma obra extremamente popular, vendendo mais de 8 milhões de exemplares dos seus 28 volumes. Como cada volume continha mais de 300 páginas, a obra tem mais de 8700 páginas.
O principal responsável pela sua divulgação no Ocidente foi um Frank Miller ainda em início de carreira, que baseou o estilo gráfico de uma das suas primeiras obras-primas, Ronin, na arte de Kojima.
O próprio Miller, na altura idolatrado como semi-deus dos comics após a publicação da sua magnum opus The Dark Knight returns, deu um impulso importante à primeira edição americana, ao criar as primeiras 12 capas. Esta primeira edição americana, da First Comics, ainda chegou às 45 edições, com capas de dois dos expoentes máximos dos 80: Bill Sienkiewicz e Matt Wagner.

Foi a tradução brasileira desta edição americana, com o nome abreviado de Lobo Solitário, que me deu o primeiro contacto com a obra. O chamariz era mesmo a capa do Miller, pois qual seria o interesse de comprar uma coisa a preto e branco e com meia dúzia de páginas, quando a manga estava muito longe de ser culto, quanto mais mainstream. O impacto foi brutal: um estilo completamente diferente do ocidental, tanto da escola franco-belga como da escola americana. Lembro que isto foi muito antes de Akira ou das obras de Miyazaki no cinema, pelo que a descoberta da nova estética era mais impressionante.

Primeiro, o respirar. Muitos dos painéis não eram usados para descrever a acção, como no Ocidente, mas sim puramente para descrever o ambiente ou dar conotações simbólicas à narrativa. Esta é uma das razões para que os manga sejam tão grandes - esta técnica permite uma leitura mais rápida.
Depois, a maturidade do argumento. As narrativas não eram lineares. A origem, em vez de ser a primeira história, só aparece quando já foram contados quase uma dezena de contos. O desenvolvimento dos personagens, muito longe do ortodoxo e do estereótipo. Personagens bens definidas em poucas páginas. Personagens femininas que não são reduzidas a donzelas em apuros ou machos com mamas. A utilização abundante mas não gratuita do sexo e da violência.

Seguidamente, a cinética do desenho. Os painéis alteravam-se em função da acção. O movimento não era dado por linhas estilizadas mas por linhas vivas que cobriam tudo.

Também uma diferente distribuição dos painéis, usando muito mais vezes a transição vertical que a horizontal.

E essencialmente os dois personagens principais: o paradoxo de um assassino, de um renegado, levar o seu filho nas suas caçadas, onde por vezes é um isco, por vezes um caçador, por vezes uma testemunha impassível ou envolvida. Esta destruição do estereótipo é o que humaniza as personagens e a história.

As diferenças são muito melhor explicadas na obra seminal de Scott McLoud "Understanding Comics". Mas é uma obra muito mais próxima de uma estética do cinema japonês (Kurosawa, Kitano) do que de uma banda desenhada ocidental.
As edições em português não chegaram aos dedos de uma mão. No ano 2000, a editora canadiana Dark Horse resolveu relançar a edição americana mas agora na sua forma integral e respeitando a cronologia original. Contudo, por ser impossivelmente caro fazê-lo no formato original, a edição vem num formato livro de bolso. Serve para conhecer a série mas acaba por ser como ter contacto com um filme apenas pela sua apresentação em DVD: a adesão é muitas vezes mais intelectual que emocional, pois vemos que existem coisas que teriam um impacto muito superior no formato original. Já está concluída e disponível nas livrarias online e nas FNAC, Tema, BDMania, etc. E quem tiver curiosidade pode ver os scans disponíveis nos torrents, que podem ser lidos com o CDisplay.

