segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A reportagem que não deixa mais nada para dizer sobre o Iraque




Já tudo se disse e falou sobre o Iraque. Passou a fazer parte da paisagem mediática e nós já nem registamos as mensagens que passam.


Morreram umas dezenas de pessoas em Bagdad? Deixa lá, são iraquianos e aparentemente destinados a isso. Tudo é anónimo e envolto na neblina do rotineiro. Já não se conseguem associar os significados às palavras.


Por isso esta reportagem é importante! Descobri-a no site dos Radiohead enquanto fazia o download do seu último álbum "In Rainbows", que eles acharam por bem vender na net pelo preço que o ouvinte queira pagar (mesmo sendo 0 €, como foi o meu caso).


É uma reportagem que humaniza as vítimas e as torna reais, através da voz e dos relatos dos militares americanos que lá estiveram. É nítida a sensação de que já não existe qualquer relação entre o papel das tropas e a missão que continua a ser propalada.


Não me interessa mais falar das causas da guerra e da ocupação e se a situação actual é melhor ou pior que a anterior. E é óbvio que a saída das tropas deixará o país num estado de perfeito caos, com todas as organizações da sociedade excessivamente frágeis e imberbes para resistir ao tumulto. Mas, depois de se ler isto, é impossível escapar à conclusão de que quanto mais tempo ocorrer este tipo de ocupação de um país islâmico por um país cristão (deixemos o ocidental de lado, pois houve muito de cruzada no modo como foi feita a guerra), piores serão os danos para a credibilidade do nosso modelo de sociedade no mundo islâmico.


A racionalidade foi substituída por uma racionalização mecânica, apoiada no cumprimento restrito dos protocolos muitas vezes treinados e na objectização do outro, do desconhecido, do árabe.


Já não há saída!

Relações virtuais

Deparei, no blog do Neil Gaiman, com esta história publicada no LA Weekly pelo argumentista de cinema Josh Olson.

Poder-se-ia dizer que é mais um caso de "Na internet ninguém sabe que és um cão" mas é particularmente bem conseguido, mostrando bem como as relações actualmente se vão afastando cada vez mais de estereótipo "Rapaz encontra Rapariga numa festa, casam-se e vivem juntos para sempre".

E a cerveja nasce...

Quem der com este blog através de uma pesquisa certamente que saberá a que se refere o nome.


"Uma cerveja no inferno" é a tradução que Mário Cesariny pretendia para o livro de poemas de Arthur Rimbaud "Une Saison en Enfer". A editora da altura vetou o nome, preferindo um mais literal "Uma Estação no Inferno". Cesariny defendeu que Saison era o nome de uma marca de cerveja na época de Rimbaud mas não foi possível demover a editora por uma razão muito válida: a editora chamava-se Portugália e já estavam fartos de trocadilhos com a cervejaria da Almirante Reis. Cesariny levou a sua avante na edição posterior da Assírio & Alvim, uma editora com um nome já menos apetecível para uma associação ao líquido.


Assim, deveria levar a tradução às últimas consequências e chamar a este blog "Uma Sagres no Inferno" mas isso poderia levantar igualmente alguma crispação em termos profissionais. Exigiria uma explicação demasiado longa aos RH para um título aparentemente tão subversivo.

O que se pretende com este blog é que amigos que já não têm tempo de trocar ideias, experiências, emoções pessoalmente o possam usar para revitalizar algo que corre o risco de fossilizar se não for devidamente alimentado.

É um meio mais duradouro que trocar e-mails. Um meio que permitirá saborear conversas e sugestões mais antigas. Um meio que permitirá partilhar livros, música, videos, filmes, ou meramente pensamentos.

É um convite para falarmos.